terça-feira, 23 de junho de 2009

Porquê?

porque é que as pessoas que constroem as nossas casas vivem na rua?
porque é que as pessoas são más?
porque é que as pessoas são todas iguais?
porque tenho de ir à escola?
porque não posso ficar abraçada à árvore do jardim o dia todo?
porque tenho de sorrir quando não quero?
porque é que as pessoas são quem não sao?
porque é que mentimos?
porque é que sentimos?
porque é que sonhamos?
porque é que trabalhamos para os outros?
porque é que chove?
porque é que as pessoas resmungam?
porque é que nao sorriem?
porque é que amamos?
porque é que sinto saudades?
porque é que nos sentimos sozinhos?
porque é que existe inveja?
porque é que nunca olhamos para o fundo das pessoas?
porque é que o meu gato gosta de mim?
porque é que há quem morra à fome?
porque é que é outro e nao eu?
porque é que os miudos se zangam por brinquedos de um lado do mundo e do outro os miudos nem força têm para brincar?
porque é que existe interesses?
porque é que existe dinheiro?
porque é que existem donos?
porque é que tenho de pagar para ir a algum lado se a terra é de todos?
porque é que estou a escrever isto?
porque é que sou assim?
porque é que questiono tudo?
porque é que estou aqui e nao noutro sitio?
porque é que pago para comer?
porque é que as pessoas se exibem?
porque é que se acham sempre melhores?
porque é que nascemos?
porque é que gritamos?
porque é que passamos a vida a correr?
porque é que há ganância se quando morrermos somos todos iguais?
porque é que na prática nao somos todos iguais?
porque é que existem pessoas que acham que nao somos?
porque é que ha escravatura?
porque é que existe guerra?
porque é que morremos?
porque é que as nuvens estao no céu?
porque é que nao sou a chuva?
porque é que nao sou um peixe?
porque é que sou humana?
porque é que gosto de gelados?
porque é que gosto de ti?
porque é que fazemos ó ó?
porque é que falamos?
porque é que há tristeza?
porque é que a alegria é rara?
porque é que nao somos simplesmente felizes?
porque é que nao sou uma flor?
porque é que acho que nao sou uma flor?
porque é que nao voamos?
porque é que nos calamos?

porque é que nao lutamos?
porque é que contamos ovelhas para adormecer?
porque é que nao sou outra pessoa?
porque é que me chamo Rita?
porque é que somos quem somos?

porque é que existimos?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

contos de fadas...

Contos de fadas, impossiveis de os construir? nunca! existem dentro de raras pessoas, que se escondem do mundo. talvez o problema seja mesmo esse. as pessoas que os têm dentro, escondem-nos, com medo.

sei que eles existem, que no meio desta serra, dentro deste crepúsculo, eles existem. mas a noite e a escuridão chegam sempre primeiro, antes de eu os encontrar.

apesar de a alma fazer peso nas minhas costas cansadas, nunca derreterei a vontade de os viver. pelo menos o sonho de os ter, de os encontrar debaixo de uma pedra, ou dentro de um lago, faz-me viver.

hoje, encosto-me a ver os corvos voarem. como queria ser corvo! quero voar. voar na grandeza da existencia. os sonhos de contos de fadas parecem-me tao impossiveis vistos daqui.

parecem tao distantes.

deito a cabeça sobre os joelhos na esperança de acalmar a confusao que existe dentro de mim.

vem, entra, mas por favor desta vez fecha a porta.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

sento-me na cadeira enconstada à parede da varanda, onde vejo a vila lá em baixo, e inumeras serras verdes à minha volta.
cheira a árvores, a vento, a vida. cheira luz, a terra, a chuva, a verde, a água. cheira a mundo!
os pássaros rasgam o crepúsculo que se estende no vale.
fecho os olhos, sinto a tua presença. sonho com os nossos passados sonhos, que hoje são apenas meus, e amanhã serão somente lembranças nossas.
imagino como seria voar naquele céu cor-de-rosa, lá ao fundo. como seria tocar a nebelina que mora no cimo das núvens.
nos meus sonhos corremos lá ao fundo naquele monte, rebolamos, dançamos, cantamos, somos felizes!
ainda de olhos fechados vejo os teus olhos nos meus, a tua boca na minha, a tua alma em mim.
um corvo passa. abro os olhos. inspiro este ar do mundo. ao meu lado só o computador. o sino da igreja lá ao fundo. os cães a ladrar.
nem sombra de ti.
o vento sopra cada vez mais forte, levando os ainda meus (antigos nossos) sonhos de conto de fadas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

esperar

Aspettare di, non aspettare più, aspettare in fondo niente altro che, la speranza afflitta. infinita, sfinita che arrivi il suo tram. [Chico Buarque]



passamos a vida a esperar, esperar, esperar.



vem.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

*

Alguém escreveu " ...e nas breves horas, ao amanhecer, reparei que estava sozinho em casa;
Lá permaneci o dia inteiro, sem ouvir o toque da campainha e sem sequer ter calçado os sapatos."
Nas breves horas, ao amanhecer, desejei transformar-me em chuva, correr pela janela, evaporar-me, desaparecer.
naquelas horas enquanto via da janela o sol nascer, o frio envolvia-me o coração e o medo corria-me nas veias. sentada no chão da varanda, encostada à janela, desejei acordar do pesadelo daquela noite. desejei levantar-me , mas aquela dor tão profundamente inquilina no prédio do meu ser, não deixou. ali, encostada, fiquei, com pequeninas gotas de chuva nos olhos, esperando a hora de ir para a faculdade.