terça-feira, 8 de novembro de 2011

Se perguntarem por mim, digam que voei.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

No cimo da nossa montanha, adeus.

Era de noite. Estivemos juntos.Desci a rua para ir ter contigo. Voei, não te queria deixar à espera. Jantámos e fui para casa. Vesti o pijama, sentei-me no sofá e esperei por ti. Chegaste não muito tempo depois. Durante tanto tempo estivemos na dúvida se o queríamos. Não.Não era sobre querer.Disso, os dois, tínhamos a certeza. A dúvida era a mesma de sempre: será que devíamos? Porque é que o fazíamos? Porque é que se tornava inevitável? O que é que nos unia daquela forma, que anteriormente ambos rejeitámos? No meio de tantas hesitações, de mil perguntas e nenhuma resposta,voltámos a juntar-nos, mais efemeramente que nunca, com uma única ideia na cabeça: aquela dança, aquele café, aquela paragem no tempo durante umas horas, não poderia, nunca mais, voltar a ser dançada, a ser bebido, nem mesmo a parar de novo. Ambos sabíamos que aquele café seria o último que beberíamos juntos. Sabíamos que aquela seria a última vez,que juntos, caminhariamos até ao cimo daquela montanha, onde no topo o tempo parava para nós. Onde juntos nos uniamos, recusando qualquer união entre nós. Onde juntos floríamos. Depressa chegou a hora de partir, e na escada da montanha olhámo-nos nos olhos e percebi, pela primeira vez, que aquele adeus também te doia. sempre quiseste que pensasse o contrário. Naquela noite percebi que também o sentias. Como pararia o tempo de novo? Quem nos encheria o peito? Quem nos faria explodir de alegria?  Esse lugar, esse só nosso lugar, era a partir de hoje, apenas um lugar de memória. Não sei se tua. Mas minha tenho a certeza. Por isso quis escrever isto. Este será o meu lugar de memória de nós. Será o lugar onde todos os dias regressarei para me lembrar desse momento ao pôr-do-sol no cimo da montanha, onde os dois construimos algo que sabiamos não poder ser construido nunca mais. Abracei-te e tu a mim. Beijámo-nos como antes tinhamos dito que não podiamos faszer. Afinal não éramos nada, não fazia sentid. Mas nessa noite isso não importava. Sabiamos que seria a última vez que sentiriamos os lábios um do outro, sabiamos que aquela despedida que tardámos em aceitar, seria pela primeira vez verdadeira. Naquela noite, em muito tempo,senti-te no fundo. E como vou ter saudades, Su. Talvez um dia nos arrependamos de ter descido a montanha e cada um ter seguido caminhos que se distanciaram. Talvez nesse dia seja demasiado longe para voltarmos. Talvez até já tenhamos esquecido o caminho de volta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Excertos de: Dois corpos tombando na água - Alice Vieira


a língua sobre a pele o arrepio
os teus dedos nas escadas do meu corpo

as lâminas do amor o fogo a espuma
a transbordar de ti na tua fuga

a palavra mordida entre os lençóis
as cinzas de outro lume à cabeceira

da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
nada do que era teu vou devolver

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entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios

domingo, 18 de setembro de 2011

...

já é de noite e eu espero ansiosamente por ti, sentada no chão ao lado da janela. Olho lá para fora e tudo o que consigo ver da rua são os candeeiros. Imagino-te ali à minha frente, do outro lado da rua. Olhas para mim. Sim és tu. mas na verdade não estás lá. aquela silhueta que vejo é apenas a minha imaginação, fruto das saudades que sinto tuas, fruto da falta que me fazes. 

Porque não voltas simplesmente?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

pressa

Abracei-te como se não houvesse amanhã. No fundo sabia que não havia. Fazia muito frio e há muito tempo que já tínhamos apanhado o comboio para longe.
Na carruagem olhava pela janela. Via, lá fora, o mundo a correr, enquanto eu permanecia parada no tempo. O que seria de nós? O que faríamos nós num mundo tão apressado? Enquanto ali estava, sentada a olha para o mundo, pensava que não queria correr. Mesmo que o mundo corresse, eu não queria correr. Queria andar pelo tempo de mão dada contigo, sem pressa. Queria rebolar na relva, que via do outro lado da janela, contigo. Sem pressa. Aquele mundo que corria, apressado sem lugar para onde correr não era para mim. Não podia viver todos os meus sonhos a correr. Não os podia viver a correr só por que o mundo é apressado. Ou, na realidade, só por que os Homens o  querem viver apressado. Queria aproveitar cada gota daquela chuva que agora caía na janela. Queria falar com cada uma e conhecer a sua vida de gota pequenina. Para isso, não podia ter pressa. Tu estavas sentado à minha frente a dormir. Como poderia eu viver aquele momento a correr? Olhar para ti a dormir era das melhores coisas do mundo. Das coisas que mais paz e calma traziam ao mundo. Com um pequenino sorriso encolheste-te no banco. Com o que estarias a sonhar?  certamente com alguma forma de mudar o mundo. À minha frente sentado a dormir estava um pequenino lutador. Aproveitar todos os momentos contigo não podia ser algo feito com pressa. 
Aquela viagem fez-me ver como desperdiçamos o nosso tempo a correr de um lado para outro e não aproveitamos as coisas pequeninas do mundo, que só podemos ver com calma. Continuava a olhar para a janela, ansiosa por sair do comboio e ir ver o mundo, contigo ao lado, sem pressa de chegar ao fim.